quinta-feira, 26 de setembro de 2013

• A guerra fria de trazer por casa

Eu tenho uma maldição que se deve propagar por contágio!…

Acontece-me bastas vezes descobrir um pequeno comércio - loja, cafetaria, restaurante, etc. - novo, que vejo com algum conceito inovador que o diferencia dos demais. Despertada a curiosidade, visito-o uma vez. E depois não tarda nada que esse pequeno negócio feche as portas de vez!…

Eu dou azar áquilo de que gosto, caramba!...

E isto não acontece só desde que esta malfadada crise económica começou a ser falada por más e boas línguas. Não. É talvez desde que me conheço e que "sou de maior", como dizem os tupiniquins.

Por tudo isto hesitei durante algum tempo em abordar o tema de hoje. Duas lojas mais ou menos recentes nesta cidade de Lisboa. Não fossem estas abrir falência…

Só o faço agora porque me certifiquei que até têm ambas planos de expansão do seu negócio, como o comprovei neste site, aqui.

Uma destas é a Liberty American Store. Que abriu vai para um ano e meio no Largo São Sebastião da Pedreira, em Lisboa. Que eu vi inicialmente como uma espécie de loja de chineses vulgar de Lineu, mas só para produtos made in USA.

Na verdade não é bem assim. Enquanto uma loja chinesa de bairro tem geralmente na sua gama de produtos de tudo um pouco - ferramentas, utensílios domésticos, ferragens, brinquedos, têxteis, etc. - menos produtos alimentares, nas lojas Liberty passa-se praticamente o contrário. 

Aí o destaque vai para aquelas gulodices que são apenas boas para a engorda dos yankees. E para produtos vendidos em embalagens king-size, que para os nossos hábitos de consumo pobretes mas alegretes até chega a soar a pornográfico…

Digo, por exemplo, especiarias como pimenta moída em embalagens plásticas de 1 kilo. Batata frita em sacos que parecem umas enormes almofadas de cama de casal. Sumos de laranja em pó solúvel em latas de 5 litros. Chocolates da incontornável Hershey's e doces em packs para famílias bem numerosas. E outras coisinhas assim todas, todas pró abrutalhado. Numa palavra, em GRANDE.

E depois há aquelas pequenas surpresas bem agradáveis de encontrar. O maior leit-motiv que me levou a entrar nesta loja foi saber de antemão que ia poder comprar um famoso molho barbecue… da marca Jack Daniels, esse absolutamente iconográfico bourbon ou Tennessee whiskey, como se queira.

E por falar em barbecue, temos lá bancadas com grelhadores para fazer o nosso churrasco texano com todos os matadores. Assim como ferramentas para jardinagem, tacos de golf, acessórios auto, produtos de limpeza e higiene, etc. Quase tudo, tudo sempre exclusivos que não se poderão adquirir senão ali.

E por agora deixemos os States, que está praticamente tudo dito de intertessante. A outra loja a que me queria referir é a Mix Markt, que descobri vagueando pelo bairro de Alvalade, num dia solarengo da mossa lindinha capital.

A primeira impressão que aquilo me causou era que devia ser uma simples loja, iniciativa de empreendedorismo de um emigrante do leste. A verdade é que não. Não é uma loja única. É uma cadeia de distribuição, na linha do Lidl ou do Aldi, mas em uma dimensão menor. E a sede desta cadeia não está para lá da antiga cortina de ferro, não! Está em Herrenberg, perto de Stuttgart.

Algum alemão viu um nicho de mercado florescente nos emigrantes da Europa de leste que invadiram o ocidente, pensei eu… Tenho sempre simpatia pelos ditos "mercados da saudade". E parece que é só este mesmo o seu público-alvo…

É que não se nota um esforço realmente adequado para cativar outros clientes quando se entra no Mix Markt! Empregados reduzidos a um mínimo necessário: dois. Pelo menos durante os dias úteis e num horário matutino. Talvez ao fim de semana se reforcem.

Disponibilidade para questões de clientes: reduzida. Nem o meu "bom dia" obteve eco. Mas deve ser só comigo...

De resto, vale a pena entrar as suas portas. É como uma viagem. Como sermos teletransportados de repente para dentro de um MiniPreço dos arrabaldes de Kiev.

E o que esperar ver lá dentro? Carradas de frascos de vidro com pepinos em conserva. Que é o que pessoalmente sempre me impressionou sobremaneira nas variadas lojas de produtos alimentares originários do ex-bloco de leste…

Mas além disso, há também caviar. De beluga. A preços engraçados. Peixe seco. Arenque, salmão e anchovas, creio. Uma charcutaria rica e igualmente interessante. Mais conservas. De peixe. De sopa (borscht). Até de melancia cortada em triângulos e conservada em calda!… Mas a grande palma de ouro vai para…

...a secção dos vinhos. De encher o olho a qualquer neófito curioso sobre néctares, comme moi. Exclusivamente - ou quase, não tenho certezas, como se poderá compreender in loco... - vinhos da Moldávia. Com rotulagens apelativas, se bem que modernaças.

Absolutamente encantador, o garrafame lá exposto. A Moldávia é ou ainda há-de vir a ser um produtor de vinho de relevância mundial. Não é por acaso que as duas maiores adegas subterrâneas do mundo estão neste país. E que são a sua principal atracção turística.

Os vinhos da Moldávia têm de ser mesmo um dos maiores segredos globais por revelar!…

E se a juntarmos aos vinhos falarmos ainda das bebidas espirituosas, tão características daquelas partes do globo terrestre… Bué de marcas de Vodka, camaradas!!! E cerveja. Duma marca que aprecio deveras. E que está a ficar mundialmente famosa: a Baltika. Com muito mérito.

Ah, quem me dera ser o director de marketing de qualquer uma destas duas lojas, a americana ou a russa!… As ideias peregrinas que não me ia apetecer experimentar...

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

• Vinum et Caseus

Ok! Vamos imaginar um wine & cheese restaurant ou bar, algo já relativamente comum, sobretudo em países emergentes no panorama mundial de produção de vinho ou em mercados consumidores mais evoluídos e exigentes.

Não é bem disso que se trata nesta ideia peregrina de hoje. Vamos pensar num conceito mais alargado. Vamos acrescentar a esta base inicial de um local para se degustar estas duas iguarias - e não só - também uma mercearia fina, no hall de recepção e de saída para o restante espaço.

Depois de atravessada esta área, pensemos noutra onde num ambiente informal e descontraído se pode passar então à prova de produtos alimentares. Cuja curiosidade sobre estes foi entretanto despertada e impulsionada no espaço anterior.

Esta segunda área pode não ser muito diversa dum wine bar ou restaurant. Não sendo particularmente vocacionada para um serviço de refeições normal de Lineu, embora não seja de excluir de todo estudar a inclusão dessa funcionalidade.

Agora pensemos numa terceira área, a mais inovadora. A que designaremos pomposamente como um "Spa Gastronómico".

Neste espaço se fará o usufruto da tranquilidade de um jardim - coberto nas épocas mais frias do ano - que se assemelhará ao de uma antiga e senhorial villa romana. Equipado com pequenas piscinas, jacuzzis, jogos de água, áreas de massagens, relvados polvilhados com puffs, galerias em arcadas com chaises longues ao estilo romano. E o mais que se possa ainda conceber para enriquecer o todo de experiências relaxantes.

Numa linha, um espaço onde qualquer pessoa - bem como o séquito que a acompanhe - se possa sentir como um rico tribuno do senado romano, com todas as mordomias com que se deseje ser mimado um dia na vida de cada um de nós.

Um recanto onde se permitam que os nossos sonhos mais recônditos e íntimos sejam livres para voar. E até despertar aquilo que não terá sido jamais sonhado.

Algo que vá muito além de um qualquer vulgar serviço de restauração. Que possa ser um farol para as tendências futuras da restauração e de turismo de elevada qualidade e inovador.

Não se pretende aqui organizar eventos como orgias romanas. Tal como publicitado neste cartaz, aqui. Ou tão pouco bacchanalias, como este outro evento neste anúncio, aqui. Mas tem de haver algo que apele constantemente ao nosso espírito hedonista, como os resorts desta famosa cadeia internacional, cujo website está aqui.

Programas de actividades serão estudadas para a ocupação de um dia inteiro neste particular spa.

Quanto ao core business, ou seja, os produtos a comprar e/ou a consumir no local inspiradores deste spa gastronómico, o vinho e o queijo… procurar-se-á ter uma amostra de tudo um pouco que se faz em qualquer canto do mundo. Já que vivemos num mercado altamente globalizado. E que cada vez mais o será. 

Não se cairá na patriótica tentação de dar particular destaque aos produtos nacionais. Até porque se demonstrará que será descabido, porventura. Que estes não estarão de todo diminuídos num confronto com o resto do mundo. Muito pelo contrário, aliás.

Não se destacarão tão pouco os vinhos e queijos mais exclusivos e caros. Não se pretende cativar aqueles que sejam mais experts nestes produtos. Os que sabem dizer, ao cheirar uma simples rolha de cortiça retirada duma garrafa, de que vinhedos e de que ano é o néctar que estão a degustar.

Pretende-se mesmo libertar de um certo snobismo o ambiente deste spa gastronómico.Quer-se que seja um lugar onde qualquer neófito não se sinta desconfortável.

Sobretudo deseja-se que seja um lugar onde se possam experimentar novidades. Curiosidades. Produtos de origens mais inusitadas. Que se pesquisarão de uma forma contínua, sem cessar.

Ou seja, concretizando um pouco mais, vinhos de lugares menos conhecidos pela sua produção. Como o Japão, o Brasil, a China, a Moldávia, a Índia, o Médio Oriente, o Uzbequistão, o Canadá, a Crimeia e a região do Cáucaso, onde é consensual que a vinha nasceu para o vinho. Ou de variedades menos divulgadas. Como os icewines ou o recente sushi wine. Ou queijos mais invulgares. Como o Juustoleipa, da Finlândia, um queijo feito de leite de rena, com alguma surpresa particularmente indicado para ser grelhado, porque não derrete. E que se devora com doce ou compotas.

E não há como estar limitado apenas a vinhos e queijos. Há toda uma outra variedade de bebidas, de teor alcoólico ou não, que podem ser benvindas neste conceito de spa. Como a cerveja, a sidra, o hidromel e outras espirituosas, sumos de uva e águas minerais mais raras. E ainda o pão, que assume tantas formas e sabores por este mundo todo. E a charcutaria fina. Os frutos do mar. O sushi. Etc..

Sem esquecer ainda o capítulo dos doces. O chocolate, produto por excelência a combinar com vinhos de sobremesa. E algumas delícias menos divulgadas confecionadas com vinho. Como o Sagu, do Rio Grande do Sul, Brasil. A gelataria fina. Os doces conventuais. Etc..

E é isto, em linhas breves, mas que se alongaram já demasiado por ora, uma das minhas preferidas ideias de negócio, da minha quiçá prolífera imaginação parida.
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Nota do autor: estamos a viver no momento no meu vetusto país uma conjuntura económica pouco propícia a grandes investimentos. E eu mesmo já vivi dias melhores em termos financeiros e pessoais. Eu devia ser comedido e talvez não sonhar alto. Mas não sei fazê-lo sem ser em modo "o limite é o céu".

Isto é uma ideia de negócio perfeitamente alucinante, devo talvez reconhecer. Mas eu não sei ter senão ideias peregrinas. Ainda. A dura realidade todavia não me venceu. E eu julgo que o mundo precisa de mentes como a minha. Oxalá, apesar de tudo, alguma ideia que de mim saia vingue um dia.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

• Foi há 12 anos...

Já decorreu este tempo todo… Desde que as vidas de todos nós sofreram este abalo sísmico que foi o 11 de Setembro de 2001.

Julgo que poucos seres neste mundo não terão sido afectados, de uma forma ou de outra, por este acontecimento. Mesmo aqueles que vivem no mais recôndito canto desta terra.

Eu estava no meu lunch break, já depois de ter engolido a sandocha da praxe, quando me vieram dizer que tinha havido um embate de um avião num arranha-céus de New York. E que estava a dar na tv.

Fui ver. Lembrei-me de uma foto famosa de outro embate de um avião no Empire State building, nos anos 50. Pensei que era só um remake da mesma desgraça… Mas depois vieram avisar-me de que tinha havido um segundo embate! E é então que a coisa começou a cheirar a esturro… Como eu já contei mais em detalhe num post de um outro blog meu, quando isto fazia uma década.

Eu trabalhava na altura no estúdio gráfico de uma agência de publicidade de renome mundial, a Saatchi & Saatchi, em Lisboa. Que fazia parte de uma rede mundial de escritórios com sede em New York, justamente. Como quase todas as grandes agências de publicidade de nível planetário.

Duas semanas apenas depois do 11 de Setembro, o conselho de administração da Saatchi, lá nos States, decidiu fechar um bom número de escritórios da sua rede… e a fava calhou-nos a nós, lisboetas, tal como a outros, em cidades europeias como Milano.

Desde então e até hoje, nunca mais tive uma carreira profissional de que me possa orgulhar com galhardia. Nunca mais tive um emprego de jeito, para ser absolutamente claro. E passei por dois longos períodos de desemprego. O último dos quais ainda dura… E dura... E dura...

Pouco mais de dois meses depois do 9/11 teve início na minha vida uma relação sentimental que iria durar nove anos. Mas da qual hoje em dia tenho de apagar suas memórias. Como se nunca tivesse tido lugar essa ligação amorosa. Talvez assim tivesse sido pelo melhor… 

E como toquei nos planos profissional e sentimental, é forçoso que siga o que é costumeiro e fale também do plano da saúde…

Aí estou mais velho. Com menos energia do que há 12 anos. Como seria de esperar. Mas de resto não me posso queixar grandemente de nada. Não serei rijo como um cepo, mas… Dou p'ró gasto. Ainda. Ao menos isso, carago…

Estou a fazer como que um balanço da minha situação pessoal actual neste post. Mas não quero esquecer o mundo que me rodeia.

Numa linha, parece-me que os Estados Unidos - a superpotência mundial que foi o alvo deste atentado - andaram entretidos em conflitos que criaram nesta dúzia de anos. Descuraram também tomar o pulso da sua economia. E com isso terão contaminado os países ocidentais que fazem parte da sua órbita mais próxima.

A crise económica global que atravessamos hoje não é de todo alheia ainda a esta porra do 11 de Setembro. Mas enquanto uns se distraiam em guerras e bolhas nos mercados imobiliários e financeiros, outros foram fazendo o seu caminho até ao topo do domínio da economia global. Como a China é o melhor exemplo dessa longa marcha com pézinhos de lã.

Se não os podes bater, junta-te a eles. Está-me cá a parecer que para quem tem ideias como as que habitam a minha mente, um bom habitat para estas se tornarem um pouco menos peregrinas será o velho Império do Meio.

Afinal, o que é a Grande Muralha da China senão uma das maiores ideias peregrinas alguma vez nascidas do génio humano?...


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

• 4º aniversário

Já foi há quatro anos!… Que eu embirrei com o facto de ser o último bicho careta á face da terra que não tinha um blog.

Nestes quatro anos muita coisinha mudou na minha existência pacata. Menos o ter deixado de ser pacata. Mas um facto eu posso concluir: eu não seria o ser humano que hoje sou se não tivesse começado a escrever num blog. Este aqui. E depois noutro. E mais em outro ainda. De outras temáticas, diferentes da primeira raíz.

Enquanto alguns bloggers se questionam porque mantém esta rotina de passar o que lhes vai na alma para o seu bloguezito, eu não tenho dúvidas. Eu quero continuar.

É uma espécie de higiene mental. De ginástica de manutenção para os neurónios.

E que eu sempre fiz de forma moderada. Não me viciei, como tantos que por aí há, na necessidade absoluta de escrever um ou mais posts por dia.

Sempre adoptei - nem de propósito - uma corrente de slow blogging, que eu nem sabia que existia, de uma forma generalizada a ganhar hoje em dia muitos seguidores.

Não conquistei aquele número de seguidores, leitores e, sobretudo, comentadores que esperava, no início de tudo isto… mas tenho obtido um excelente retorno de alguns - poucos - leitores. Os quais me fizeram dos melhores elogios - e sinceros, acima de tudo - aos primeiros embates com a minha alma desnudada nas palavras que me foram inspiradas por diversos momentos singulares e bem vividos.

Que eu me lembre, raramente terei passado a esta virtual letra de imprensa - que perdurará depois de mim por muitos anos, como um legado arqueológico - assuntos banais. Não postei por postar, sem mais. Ainda assim, os conteúdos que fui ao longo destes tempos produzindo não foram suficientemente atraentes para me tornar até agora numa Pipoca Mais Doce no masculino…

Paciência, digo eu… Se tivesse sido assim, talvez não me sobrasse tempo algum senão para responder a todos os comentários de muitos mais leitores. E como tal, a qualidade dos momentos de reflexão e meditação a que cada post meu me obrigou teria decaído.

Ainda gostaria de me tornar num blogger que subsistisse como profissional só a fazer isto. Essa louca esperança não a abandonei por enquanto. Pode ser que este quarto aniversário seja finalmente a minha travessia do Rubicão.

Alia jacta est!…

Ganas, tenho-as cada vez maiores. Ainda maiores do que há quatro anos atrás, quando uma hora resolvi mergulhar de cabeça nisto, por uma pequena teimosia.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

• Praias fluviais

A minha cidade natal, Lisboa, parece ter ganho uma praia fluvial. Na Ribeira das Naus, aquele espaço entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré, durante tantos anos deixado ao desprezo. 

A edilidade olissiponense prefere não classificar este referido local e a sua intervenção urbana como uma verdadeira praia fluvial. Designa a coisa antes com "avanço de margem". Pois bem… É uma cautelosa atitude. Porque as águas do Tejo naquela zona são mesmo impróprias para banhistas.

No entanto, os turistas que nos visitam não o sabem de imediato. E pululam a zona com toalhas de praia estendidas em cima das lajes de betão onde as ondinhas do rio vêm rebentar devagarinho.

Se nós, lisboetas e gente dos arrabaldes suburbanos não banhados pelo mar, quisermos imitá-los e limitarmo-nos a tomar banhos de sol resultantes em escaldões tipo lagosta suada, aqui está a solução que a crise impõe para trabalhar para o bronze, de uma forma troikiana.

Agora um pouco mais a sério… É uma lástima que não existam praias de rio no Tejo de jeito senão bem longe da sua foz. Sendo a primeira das menos longínquas, na minha opinião pessoal, a de Constãncia. Que fica a mais de uma centena de kilómetros. E mesmo assim, o que lhe vale são as águas límpidas do Zêzere, que ali se reúne ao nosso maior rio.

E digo lástima porque hoje em dia dou privilégio a estas praias mais calmas do as oceânicas. Quanto não é melhor sair duma água fresca e clarinha até mais não e ir descansar a seguir á sombra de uma pequena floresta de árvores frondosas e sobre uma relvinha bem aparada… em vez de uma torreira de sol e areias tórridas.

É por isso, porque para mim praia fluvial à maneira tem de ter áreas verdes e sombras frescas, que não considero como opção as praias do rio Tejo dentro da área da grande Lisboa. Como a dos moínhos de Alburrica, no Barreiro ou a da aldeia do Rosário, na Moita. Ou a da antiga seca do bacalhau em Alcochete.

Eu aplaudo o facto de hoje em dia muitas autarquias do interior de Portugal terem despertado para os encantos das águas cristalinas dos nossos rios e ribeiras. A ponto de se terem edificado praias fluviais com arranjos paisagísticos das suas envolventes muito convidativos.

Pena é que eu viva tão longe dessas terras do interior… Mas ainda um dia hei-de trocar esta Lisboa, que me tem sido tão aziaga, por alguma dessas paragens onde se ouve água corrente, mesmo no mais seco dos estios.

Para quem quiser sonhar o mesmo que eu, é consultar o cardápio destes pequenos paraísos, ainda meio secretos. Dois dos melhores websites para o efeito são: 

O Rede de Praias Fluviais, da responsabilidade da ADXTUR - Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto;
 
...e o Guia das Praias Fluviais, editado pela Blanche, uma produtora de Castelo Branco, cujas actividades são a gravação de som e imagem e edição de música. Estranho é que com este excelente website, esta empresa não aproveite para se promover…

E com isto, estamos apenas a falar do Pinhal Interior!… Ainda não se abordam as praias do interior norte, da Beira Alta, do Alentejo... ou do Algarve, que também tem algumas bem pouco conhecidas mas assaz interessantes praias de água doce.

Mas se fosse pedido para eleger uma, acho que a minha tendência iria para a praia fluvial do Açude Pinto, em Oleiros… A ver bem se não é altamente apelativa a imagem em baixo deste recanto secreto.


sábado, 27 de julho de 2013

• Uma pedra mais para o meu castelo - VIII

Áreas de lazer. O meu rico castelo não poderá nunca prescindir destas, ao seu redor. Jamé! Jamé!*…

E eu tenho particular queda para desportos individuais. Em primeiro lugar, os racket sports, com que cresci, privilegiando-os. Depois, o tiro com arco, que recentemente comecei a praticar.

O primeiro desporto de raquete a que ganhei afinco foi o badminton, aos meus 10 anos. Passava tardes de domingo só a bater no volante com um parceiro. Sem rede nem campo com piso bem delimitado. Apenas para suar com esse exercício não competitivo.

Hoje eu desejaria ter um court de badminton mesmo a sério. Um pouco como um que houve em tempos nas termas de Monte Real, Leiria, ao ar livre, com uma cortina de ciprestes a servir de quebra-vento. E com um piso como o da foto ao lado.

Por volta dos meus 15 anos deu-me a louca de querer construir a minha própria mesa de ping-pong. E gastei uma razoável maquia de dinheiro, materiais e tempo a executá-la. Para o resultado final ser muito amador. Nunca fui muito dado a trabalhos manuais. Mas fui persistente. Teimoso, até. E ainda cheguei a gozar umas boas horas de prática de ténis de mesa nessa minha pequena obra-prima da carpintaria de limpos.

Hoje eu seria mais de comprar tudo feito. E ter um cantinho exterior para armar-me em craque chinês como o da foto ao lado. Com algumas ligeiras modificações. Nada daquela bárbara rede rígida metálica! Antes uma rede têxtil normal, com impecáveis esticadores. E uma placa com cantos ortodoxos, ou seja, em ângulo recto e não arredondados. No mais, a estrutura de suporte está lindíssima. 

Aos meus 17 anos, acordei para a era Bjorn Borg. Com a compra de uma revista brasileira de tennis, com uma reportagem sobre o torneio de Wimbledon desse ano. Aqueles courts lindíssimos de relva natural, bem aparadinha, que sonho!…

Pensei então em fazer o upgrade dos meus skills de controlo da bolinha de celulose branca numa mesa para agora dominar a bola de látex forrada a feltro amarelo num campo de bem maiores dimensões. E fui logo para a Escola de Ténis João Lagos, no CIF, alto do Restelo, na minha Lisboa natal.

On my wildest dreams, e se o meu castelo vier a ser também uma pequena unidade hoteleira de turismo de habitação, ambicionaria ter 3 courts de tennis, de diferentes superfícies: relva natural, pó de tijolo e piso sintético bicolor. Isso seria um must! E não conheço ainda nenhum caso no mundo inteiro de tal conjunto de 3 courts, lado a lado, num só empreendimento. Mas é provável que esta minha aspiração não seja original e alguém já a tenha concretizado algures.

Mas se for um só court, pode bem ser como este da foto ao lado. Com áreas laterais mais generosas em largura. O piso que acho que privilegiaria seria um sintético, tipo tartan. Se algum instalador o fizer. E com as tradicionais vedações de rede metálica ocultas com alguma solução vegetal. Tipo sebes. Ou mais uma vez, ciprestes, como os das minhas memórias de modestas mas prazeirosas férias na bela zona de Vieira de Leiria, cercana a Monte Real.

Agora, em anos mais recentes, no início da minha finda década de quarentão, eu já julgava que nunca mais na vida iria ser um atleta olímpico! Mas depois pensei que existe o tiro com arco. Onde a idade não é assim tão determinante como em outros desportos que pedem mais do físico. E vai daí, adquiri um arco e flechas de iniciação e um alvo. E também tive algumas aulas, ministradas por um português que foi um representante nosso nos Jogos de Atlanta, em 1996.

No meu castelo haverá uma pequena carreira de tiro, bem vedada com árvores altas e uma fina rede de segurança. Para que os arqueiros meus convidados e eu possamos usufruir dessa área numa animada e saudável competição entre nós. Talvez floresçam lá uma mão cheia de novos Robin Hood…

Poderei ainda fazer uma ligeira concessão a um desporto colectivo: o basketball. Isto porque também construí um belo dia, com materiais reciclados, uma bem tosca tabela de basket. Num telheiro sobranceiro ao poço, datado de 1740, da quinta da minha adolescência. Ao lado da qual ainda habito hoje, num apartamento vulgar de Lineu.

Nesta concessão estou a falar apenas de uma tabela. Nada de um campo de basket oficial, inteiro! Só uma pequena área com as marcações de um "garrafão". Como é da gíria deste desporto chamar a essa parte do campo debaixo do cesto. Só para praticar aí uns dribles e encestamentos avulsos. Sem grandes stresses. Just for fun.

E é isto por hoje. Em outras ocasiões futuramente vamos abordar também ideias para actividades desportivas aquáticas e indoor. Que isto do lazer lá nos meus domínios senhoriais não se pode nem se vai esgotar por aqui!...
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* Expressão emblemática de um ministro das obras públicas de um governo português dum passado recente. De sua graça Mário Lino. Um bacano. 

domingo, 21 de julho de 2013

• Procuro modelos fotográficos (m/f)

Modelos: Valentin Carmin e Anastasia Balagurova
Vou hoje aqui ousar publicar um post à laia de anúncio classificado. Quero realizar o sonho que já aqui anteriormente neste blog descrevi, num outro post que intitulei "Quero ser Marco Glaviano!".

• Procuro modelos fotográficos (masculinos ou femininos)

Para sessões fotográficas visando a criação de books ou portfolios para participação em concursos e castings, com vista à promoção pessoal, tanto do fotógrafo como dos modelos.

As sessões fotográficas serão TPF ou pagas, conforme acordado e do interesse mútuo de ambas as partes. O meu estúdio fotográfico preferido é a mãe-natureza no seu estado selvagem. Mas estou aberto a outras soluções e propostas da parte dos modelos.

Dou preferência a modelos com características mais procurados pelos mercados audiovisual e da publicidade, ou seja asiáticos(as), africanos(as), latinos(as) ou do leste europeu.

Para além das características citadas, seria particularmente interessante ter a possibilidade de fazer sessões fotográficas com casais ou grupos.

Os eventuais interessados neste desafio global poderão avaliar da valia técnica e artística em fotografia deste vosso criado observando os meus álbuns de fotos no facebook ou os portfolios divulgados por mim nos websites iStudio e Model Mayhem.

domingo, 14 de julho de 2013

• GEPE

Fui de visita à minha tia a Marrocos, hip hop…

Bem… não foi bem isso o que o meu dia de ontem foi. Mas foi quase. Fui a um congresso de gente feliz.

Para os devidos efeitos, oficialmente este magnífico evento levou a denominação de "Congresso GEPE - Juntos vamos mais longe!".

GEPE*, como se pode ler em cima na imagem no topo deste post, é uma sigla que descodificada significa "Grupo de Entreajuda para a Procura de Emprego".

Existem cerca de uma trintena ou mais destes grupos por todo o país. E todos os dias podem nascer mais outros. Curiosamente, Coimbra ainda não foi contemplada com um destes grupos…

Alguém dentro de um destes grupos já disse que sim, que os GEPE até podem ser comparados aos grupos de Alcoólicos Anónimos. Só que a queda no vício do alcoolismo não é, regra geral, involuntária ou imprevisível. E o surgimento de uma situação de desemprego, sim, pode muito bem ser.

No resto, em ambos os tipos de grupos há uma grande vontade, colectivamente partilhada, de mudar as coisas.

Mas também há uma outra visão sobre esta situação temporária, tão socialmente estigmatizada. Para além da vontade de mudança, tem de haver a aceitação do desemprego como uma oportunidade.

Isso foi realçado por uma voz, ao menos, neste congresso de gente feliz, como já atrás o classifiquei. Gente que, já agora, nem parecia um bando de desempregados. Como repetidamente foi realçado por alguns participantes. Porventura foi esta a voz que eu mais escutei com atenção. A de uma grande senhora, mãe de quatro filhos e dona de um elevado nível de auto-conhecimento. Aparentemente. É de sua graça Patrícia esta mulher singular. Bonito nome...

Que fez questão de dizer a todos que o desemprego pode atingir qualquer um, em qualquer lugar. Até a ela, que teria um cargo na função pública na Presidência da República. 

Mais fez questão de contar que desceu ao pior de si, provavelmente em termos de auto-controlo, mas que reverteu esse estado de alma e - frisando bem de antemão que não a interpretassem mal - declarou que... gosta neste momento de estar desempregada.

Porque o desemprego pode ser mesmo um tempo de oportunidades. Porque se fica com mais tempo para nós próprios. Tempo que não está disponível em quantidade e qualidade quando estamos entretidos a consumir as nossas vidas em horários normais de expediente, cinco dias por semana.

Podemos encarar as carreiras profissionais de cada um de nós como searas de trigo. E o desemprego como um período de pousio. Um tempo de renovação em tranquilidade.

O desemprego é, afinal, um problema social que é efeito colateral da revolução industrial e de toda a natural evolução da nossa civilização que se lhe seguiu. E veio para ficar.

Ciclos de abundãncia e de carência nas economias global e nacionais hão-de alternar-se para sempre e os níveis de desemprego não terão outro remédio senão acompanhá-los. E tudo escapará grandemente ao controlo que nós, enquanto indivíduos, poderemos ter das nossas existências, em permanência.

E é isto que se me oferece contar à laia de balanço pessoal de um dia de imersão numa pequena multidão constituída por uma élite de gente que é sedenta de energia positiva.

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* Os GEPE são um projecto promovido pelo IPAV - Instituto Padre António Vieira.

sábado, 29 de junho de 2013

• Uma ideia nada peregrina!...

…p'ra variar! Uma ideia mesmo do caraças!!!…

E que ideia seria essa?… Um verdadeiro ovo de Colombo, creio eu. Que seria: fazer aquilo que as cadeias de fast food nos prometem e nos criam água na boca e nos levam a experimentar. Mas em bom!

Eu sou um tipo que cai imensas vezes no erro de acreditar naquilo que o marketing nos mostra, com fotos francamente bem feitas e apelativas. E quando o copyright acompanha na perfeição então…

A minha última banhada foi na Pans & Company. Estive a fisgar durante longo tempo afinfar o dente naquele creme de queijo de Nisa (ui, ca'bom!…) a cobrir um lombinho de porco, ainda por cima com pimentos bem vermelhos e em pão de oregãos. Sabia bem que ia levar decepção p'ra casa! Mas lá cedi um dia…

Evidentemente, nada a ver com a foto aquilo que me foi servido. Pimento muito menos abundante, fatia de lombo não tão alta… e o pior de tudo, pão superaquecido á pressa, em micro-ondas, com certeza, o que fez com que o creme de queijo praticamente se volatilizasse. E o sabor dos oregãos nem se desse por ele. Uma autêntica mistela!…

Na ocasião em que provei esta coisa inqualificável de tão mentirosa que é, no Centro Comercial Vasco da Gama, reparei que devia ser o primeiro dia de um novo emprego de um pobre homem já cinquentão, ao balcão daquela loja da Pans. A ter que vestir aquelas fardas tantas vezes ridículas dos estaminés deste género… mas era um renascer da esperança para ele. Um novo emprego, muito benvindo.

Na cozinha, outros recursos humanos, talvez bem mais antigos na casa, laborariam… e nem por isso o resultado final para o cliente foi satisfatório. Dica: formação profissional on the job precisa-se com urgência. Ou uma melhor orientação das gerências de loja.

Mas é assim a vida! Se nós queremos encher a malvada na filosofia low cost e a despachar, é melhor não termos expectativas demasiado elevadas quanto à qualidade.

E o que eu digo aqui da Pans e desta experiência gastronómica traumática vale tanto para este caso, claro, como para outras cadeias de fast food como o bom velho McDonald's, que muitas vezes nos apela a vivenciar umas variações aos seus menus standard. Same for Pizza Hut. E até o meu preferido Burger King não escapa á crítica.

As gentes do H3 já perceberam isto. E a sua clientela não abranda de aumentar. E além de tudo o mais, os seus empregados têm uma coisa simplesmente única e louvável: sorriem p'ra nós, que lhes damos a distinção de escolhermos os seus produtos e não os de outros. E isso, digo-vos, p'ra mim faz uma diferença enorme. Que não tem preço.

terça-feira, 25 de junho de 2013

• Peregrinando por aí

O mundo inteiro protestando contra a crescente degradação do seu nível de vida, contra terem de pagar dívidas públicas de estados que esbanjam dinheiros e recursos, contra corrupções grassantes por todo o lado, contra serviços públicos cada vez mais degradados na sua qualidade, como a saúde, a educação, a justiça, etc…

…e eu apenas encantando-me com ideias tão peregrinas como a do tipo que pensou num iate em forma de porta-aviões nuclear, que se vê acima. Ideal para ir peregrinar pelo mundo inteiro, passando ao largo dos inúmeros tumultos nas grandes urbes. E da revolução global.

Estou além.
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Nota: a foto acima é a reprodução de uma página dupla de um interessante artigo sobre projectos megalómanos para grandes navios para clientes multimilionários, publicado na revista Newlook France, edição de Setembro 2011, cuja bonita capa - para dizer o mínimo... - se mostra aqui ao lado. 

Como dizia Fernando Pessoa, provavelmente com muitíssima razãozinha antes do tempo, "navegar é preciso, viver não é preciso"...

segunda-feira, 20 de maio de 2013

• Uma pedra mais para o meu castelo - VII

À beira de água corrente. Não muita. Somente com um curso um tudo nada suficiente para não secar no estio. Com margens verdes todo o ano. Com uma natureza disciplinada por um açude. Para aproveitar a força motriz da água. Com uma praia fluvial para um tranquilo fruir dos tempos livres, tanto no tempo quente como no frio.

Uma morada assim, se do sonho virasse realidade, tornar-me-ia um sedentário militante. Até é melhor talvez nunca ter.
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Nota: A foto no topo deste post é o Le Moulin de l’Abbaye Hotel em Brantôme, Périgord, França.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

• Sidra

Quando eu era um puto de oito anos, havia na região saloia onde cresci uma fábrica de refrigerantes perto de Caneças onde era produzida graças a um franchising uma bebida que aprendi a gostar por demais: a extinta Carbo Sidral.

Áquela época, as grandes cadeias de distribuição alimentar tipo Sonae ainda não tinham aparecido ou proliferado tanto assim como hoje. Por isso, a boa da Carbo Sidral saía da fábrica em velhos camiões de transporte de grades de garrafas e estas eram descarregadas directamente em cafés e restaurantes da zona da grande Lisboa, pelo menos. E até mesmo à porta do consumidor final! Isto no nosso próprio caso, o dos habitantes aqui da zona da então freguesia de Odivelas que bastava fazer o pedido nesse sentido ao departamento comercial da fábrica. Todas as semanas tinhamos certinha uma grade de 12 garrafas a ser-nos entregue. Como se fosse pela carrinha de um leiteiro de antigamente.

No meu ano sabático de férias pagas pelo exército português na ilha da Madeira experimentei uma vez só na vila piscatória do Caniçal uma bebida que era até então apenas um mito pessoal. Falo da sidra que me disseram ser tradicional do Santo da Serra. Não fiquei mesmo nada cliente naquele exacto momento. Aquilo era mais um vinagre do que uma poção que me recordasse o suco do fruto do pecado original.

Quando debutei a minha carreira profissional na área da engenharia, tive de efectuar frequentes deslocações até ao Minho, principalmente aos concelhos da Póvoa do Lanhoso e de Vieira do Minho. Aí, uma daquelas pequenas impressões locais que me chocava sobremaneira era a quantidade de maçãs que jaziam nos solos, caídas das árvores nos campos daquelas paragens. Sem que ninguém aparentemente quisesse tirar qualquer proveito daquele recurso que a natureza generosamente disponibilizava. Dava vontade de fazer alguma coisa! Não perpetuar um desperdício tão grande como aquele. Mas como? Isso à altura eu ainda não vislumbrava.

Quase a abeirar os meus quarenta anos, descobri essa pequena maravilha terrena que é a Bretanha francesa e, claro, por força das circunstãncias, le cidre doux breton… e foi um coup de foudre. A partir daí, se tivesse de escolher uma só bebida, além da H2O de Lineu e do leitinho Vigor, que fosse a única até ao fim dos meus dias que eu poderia engolir ás refeições essa seria a sidra que os celtas nos deixaram em legado.

Com um curriculum vitae destes, ás tantas eu devo ser um gajo mesmo ideal para relançar a produção nacional de sidra, penso eu!…

Andei a ver umas coisas aqui e acolá na web. Ao menos no Santo da Serra, na Madeira, a sidra parece que não passa de moda… A julgar pelo cartaz lá em cima.

Aqui no continente consta que a sidra já teve uma tradição de consumo no norte, justamente no Minho. Tradição essa que em Ponte de Lima se pretende renovar, com o arranque da produção de sidra tradicional, sob a marca Lagoas. Como se mostra numa foto acima neste post. Há dois anos que esta iniciativa dura. Desconheço ainda que sucesso terá hoje.

Junto do Minho temos a Galiza. Que será a região espanhola com mais toneladas de maçã colhidas. Tantas que as exportam a granel para que chineses e japoneses também façam hoje a sua sidra. Um pouco mais longe, nas Astúrias, existe desde tempos imemoriais a melhor sidra ibérica, dizem.

Mas para beber a melhor de todas para mim, temos de continuar a rumar mais a norte ao longo da costa. Ah, a cidra doce da velha Armorique! Com uma publicidade como a da Kerisac, que se mostra aqui ao lado, nem carecia de ser tão boa… E então o kir breton! Ui... Mas há muito mais mundo no que diz respeito ao rico sumo de maçã fermentado. A saber...

Nas Américas, onde o saber da produção da sidra foi trazida pelos colonos britânicos, alguns tipos novos deste néctar divino terão surgido. Como é o caso da cyser. Que é uma sidra em que se mistura mel, tornando-a assim mais densa e escura e, para além disso, muito doce. Aqui ao lado, a da Eaglemount, de produção artesanal no estado de Washington, bem lá no noroeste americano. Que pomada que isto deve ser, meus deuses!!!... Oxalá haja deste lado do Atlântico também.

No Canadá, perto dali, once já vingava um algo surpreendente ice wine, nas regiões bem frias junto ao Alaska, fizeram nascer também a ice cider. Feita a partir de maçãs mirradas pela neve e pelo gelo. Que aqui em Portugal os jovens agricultores diriam logo que eram duma colheita para deitar inteirinha para o lixo. Aqui à direita, uma típica garrafa de design finíssimo, da marca Pinnacle, do Quebec. Valendo o seu peso em ouro, muito provavelmente...

No hemisfério sul, a Argentina tem na sidra uma bebida de largo consumo. Já no Brasil, a coisa parece que pega sobretudo ou só quase no Natal, onde se apelida de champagne dos pobres. Imagem um pouco pejorativa que me arrepia o pelo, por depreciar a minha bebida preferida. Mas talvez a maçã tupiniquim não seja mesmo lá essas coisas… Apesar da esbeltez da embalagem à esquerda ilustrada... Para pobres, hein?...

Já me estou a alongar e ainda não toquei no célebre Calvados da Normandia nem no apple brandy anglo-saxão. Nem ainda em sidras que não levam sumo de maçã… mas de pera. Ou de frutos vermelhos. Ou sidras misturadas com vinho. Ou a sidra tomada quente - sim, quentinha, que nem um chá - com um indispensável pau de canela a aromatizar, mergulhado na chávena. Mas por hoje fico por aqui.

Ressuscitar a sidra em Portugal é bem uma ideia peregrina! Requeriria toda uma campanha de marketing bem arrojado. Mas seria para o bem comum, uma vez que esta bebida tem tantas boas potencialidades para a saúde humana… A ver, citando este artigo aqui, da autoria de Regina Pereira, engenheira agrícola:

"A Sidra tem alguns efeitos benéficos para a saúde, sendo um produto, diurético, eupéptico (facilita a digestão), anti-oxidante, febrífugo (inibe a febre), anticatarral, antidiarreico, digestivo, que previne enfartes e outras doenças cardíacas, protege a arteriosclerose, é anticancerígeno, cicatrizante, entre outros.
Não é por isso de estranhar ouvir dizer que «saímos do paraíso por causa da maçã e com a maçã voltamos ao paraíso».
Por isso, beba Sidra (com moderação)…"

Tenho de estudar agora quais são as melhores variedades de maçã da Tugalândia que se adequarão a ser transformadas em líquido. Nem que seja para apenas me poder relembrar do saudoso sabor da Carbo Sidral de quando eu era um infante muito verde.